Dislipidemia

15/08/2019

Os níveis plasmáticos anormalmente elevados de colesterol no sangue (também chamados de dislipidemia) são um dos principais fatores de risco para as doenças cardiovasculares (DCV), que incluem o infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral (AVC), doença arterial obstrutiva periférica, morte súbita, insuficiência cardíaca, insuficiência renal, dentre outras. Essas doenças são hoje responsáveis por cerca de 30% da mortalidade em todo o mundo. Dessa maneira, é extremamente importante se saber se um indivíduo possui ou não dislipidemia.

De modo geral, o colesterol sanguíneo é composto por: lipoproteínas LDL-c (low density lipoprotein), VLDL-c, HDL-c (High density liproprotein) e os triglicerídeos (dentre outros). Todos eles estão reconhecidamente relacionados com as DCV. O LDL-c é a forma dominante do colesterol aterogênico, demonstrando em diversos estudos seu caráter diretamente proporcional com as DCV (ou seja, quanto maior os níveis de LDL-c, maior risco de doença). O VLDL-c é o principal transportador de triglicerídeos e é também aterogênico. Sobre o HDL-c, apesar de aparentemente não ser aterogênico, e até mesmo benéfico em níveis elevados, há estudos que demonstraram que níveis muito elevados também causam malefícios. A combinação de LDL-c e VLDL-c, chamada de "colesterol não-HDL-c”, é mais aterogênica do que o LDL-c sozinho. Há também outros indicadores de forte aterogenicidade como a apolipoproteína B (apoB), presente nas moléculas de LDL-c e VLDL-c.

Existem valores de normalidade ?

Depende do risco cardiovascular de cada paciente. Por exemplo, pacientes portadores de diabetes mellitus podem ter níveis de colesterol não muito elevados, considerados “normais” para outros indivíduos, porém, por terem diabetes, seus níveis seriam inadequados para sua condição. Portanto, basear-se nos valores de referência presentes nos laudos de laboratório pode ser um fator confuso.

O ideal é que todos os indivíduos de baixo risco cardiovascular (estimados idealmente por escores de risco - ver seção check-up cardiovascular), mantenham níveis de LDL-c menores que 130 mg/dl e de colesterol não-HDL menores que 160 mg/dl. Indivíduos com risco intermediário devem manter LDL-c menor que 100mg/dl e o colesterol não-HDL menor que 130mg/dl; Aqueles com alto risco cardiovascular, manter o LDL-c menor que 70 mg/dl e/ou colesterol não-HDL menor que 100mg/dl. Pacientes que já tiveram eventos cardíacos, como o infarto do miocárdio por exemplo, são considerados de muito alto risco cardiovascular, e devem manter níveis de LDL-c menores que 50 mg/dl e/ou colesterol não HDL menores que 80 mg/dl.

E quais são os indivíduos candidatos ao rastreio para a dislipidemia?

A triagem é sempre indicada em indivíduos que já tiveram eventos cardiovasculares prévios. Além disso, todos os homens adultos com mais de 40 anos e mulheres com mais de 50 anos ou pós-menopausa e aqueles que apresentam outros fatores de risco cardiovascular deveriam ser triados para dislipidemia. Pacientes com condições inflamatórias crônicas autoimunes, como os portadores de artrite reumatóide, lúpus eritematoso sistêmico (LES) e psoríase ou até mesmo pacientes com doença renal crônica possuem maior associação com a dislipidemia, portanto, devem ter os níveis de colesterol no sangue dosados. Mulheres com diabetes ou hipertensão durante a gravidez ou homens com disfunção erétil também possuem mais relação com níveis elevados de colesterol.

Manifestações clínicas de dislipidemias podem ser encontradas em portadores de distúrbios genéticos. A simples presença de xantomas, xantelasmas e / ou arco corneal prematuro (<45 anos) podem sinalizar a presença de um grave distúrbio lipoproteico, especialmente a hipercolesterolemia familiar (HF), que é o distúrbio mais frequente associado à doença cardiovascular prematura. Nesses indivíduos, o rastreio deve ser ainda mais precoce.

Tratamento:

Basicamente, é feito através da mudança dos estilos de vida e, quando necessário, de tratamento farmacológico. Há fortes evidências mostrando que fatores dietéticos, por exemplo, podem influenciar diretamente no processo de aterogênese promovido pelos níveis elevados de colesterol, ou também através de efeitos sobre fatores de risco tradicionais, como a própria dislipidemia, hipertensão arterial e diabetes.

Evidências atuais baseadas em estudos abordando a questão mostraram que os padrões alimentares encontrados na dieta para controlar a hipertensão (DASH) e na dieta mediterrânea trouxeram benefícios significativos; ambos provaram serem eficazes na redução de fatores de riscos cardiovasculares e, possivelmente, na contribuição para a prevenção de DCV. Eles são caracterizados pelo alto consumo de frutas, legumes e cereais integrais; ingestão frequente de leguminosas, nozes, peixe, aves e produtos lácteos com baixo teor de gordura e ingestão limitada de doces, bebidas açucaradas e carne vermelha. A dieta DASH e a dieta mediterrânea derivam de uma grande proporção de gordura dietética de óleo vegetal não tropical, e não de origem animal. A diferença mais relevante entre elas é a ênfase no azeite extra-virgem dado na dieta mediterrânea. Este último padrão alimentar tem sido comprovado em estudos sua eficácia na redução de doenças cardiovasculares tanto como prevenção primária quanto secundária (naqueles que já tiveram eventos, como o infarto).
Caso haja necessidade de tratamento medicamentoso lipolipemiante, as estatinas são a primeira linha de tratamento, além claro das intervenções no estilo de vida saudável. Outros medicamentos para baixar o LDL-c incluem a ezetimiba, os sequestradores de ácido biliar e mais recentemente, os inibidores de PCSK9. Drogas para diminuir os triglicerídeos são os fibratos e a niacina.
Prevenção:
A prevenção tem tamanha importância que estudos apontam que a simples mudança dos hábitos de vida (atividade física, cessação do tabagismo, controle do peso corporal, redução da bebida alcoólica em excesso, redução dos açúcares e carboidratos, etc.) contribui de maneira significativa para uma redução de pelo menos 80% das DCV e mesmo até 40% dos cânceres (isso mesmo, câncer!), ou seja, seu controle possui benefícios de valor agregado, reduzindo inclusive a incidência de doenças crônicas.